E A TECNOLOGIA, COMO TEM PASSADO?

O movimento no aeroporto é tímido. Mesmo após a retomada dos voos domésticos, e as limitações ocasionadas pela COVID19, os passageiros ainda estão preocupados, naturalmente com medo, aparentemente só estão viajando em caso de extrema necessidade. Eu infelizmente, não pude adiar meu voo, mas, já estava voltando pra casa.

– Senhor, posso me sentar aqui ao seu lado ? Parece que o único lugar que a “minha internet” funciona é bem aqui, nesse banco ! Olhei para o lado e me deparei com uma moça, que provavelmente recém saída da adolescência, trajava roupas condizentes com sua idade (não que isso fosse um elogio).

– Claro, sem problemas, disse eu, após pular dois bancos para a direita, mantendo as regras de distanciamento social. Após agradecer, ela continuou:

– Não acredito, vou cancelar essa porcaria de plano !! Agora, bem na hora que mais preciso do meu celular, não consigo usar !! E esse aeroporto, nem para ter um WIFI decente !!!

Não me contive e, num momento de solidariedade, afinal esbravejar sem ser ouvido é muito decepcionante, perguntei:

– Desculpe a pergunta mas, há quanto tempo você tem plano de celular nessa operadora ? Seu plano é novo?

– Nãaaoooo, já faz uns três anos que tenho plano com eles, mas hoje… Tá difícil viu !

Pois vejam só: Três anos simplesmente jogados fora, e assim se vai mais um cliente… Inevitavelmente, me coloquei no lugar da operadora que, com certeza, talvez nem esteja tão preocupada com tal perda quanto eu, mas a reflexão foi imediata. Eu acabara de voltar de uma viagem, onde fui aconselhar duas das pessoas que mais amo nesse mundo a não terminarem um casamento de 25 anos, e ouvi de uma delas “pois é, nós não demos certo !!!”

Vinte e cinco anos perdidos ? Eu prefiro acreditar que apenas um ou dois, pois é impossível que todos eles tenham sido ruins. Mas, assim é o ser humano, exigimos demais daquilo que temos muita expectativa. Um casamento de vinte e cinco anos e, quando acaba parece que foi todo em vão.

Gosto muito de jogar tênis e me lembro muito bem dos comentários negativos sobre o Gustavo Kuerten (Guga), quando o mesmo teve que abandonar as quadras, mesmo tendo permanecido por quase um ano em primeiro no ranking mundial, num dos esportes mais disputados que existe.

Será que Usain Bolt será lembrado como o que ele realmente foi ? É cruel: Nas atividades em que se requer o maior esforço para se destacar, o tempo de glória parece inversamente proporcional ao tempo dedicado para se chegar ao topo. Esportes de alta performance não tem passado. Lembrei-me, agora de uma música dos Titãs, “a maior banda de todos os tempos da última semana”.

E quando falamos em tecnologia ? Qual foi o último celular lançado mesmo ? Talvez nem saibamos qual o último modelo da mesma marca, imaginem dentre todas. Com certeza, a minha “colega de banco” aqui ao lado, já não acha que o celular dela é o mais avançado, deve ter algum outro cujas 3 ou 4 ou sei lá quantas câmeras, na frente e atrás, fazem algum tipo de foto que aquele outro aparelho que saiu no mesmo passado não fazia.
Usuários de tecnologia são muito exigentes. Pequenos lapsos de tempo (sim, meros milisegundos), são motivos de sobra para que a operadora de celular saia do céu e vá ao inferno. Memórias RAM de celulares são exaltadas, como se, por algum momento tanto recurso à disposição seja realmente necessário ou apenas um carimbo no passaporte para a tribo tecnológica mais avançada.

E quando falamos em infraestrutura de TI ? Ao usuário final, qual a visão real de “nuvem”, afinal, quem está construindo, tecendo essa verdadeira trama, esse firmamento para abrigar tantas nuvens ? Num Datacenter, podemos dizer que o termo exigência é elevado a outro nível. Não basta ser bom durante anos, tem que ser bom agora. Mas, se por um lado isso pode ser tido como um obstáculo, àqueles que realmente se destacam por esse motivo veem como um balizador, uma régua alta, da qual fazer parte faz todo o sentido.

Tal qual os atletas de alta performance, os profissionais de tecnologia estão acostumados ao esforço absoluto em busca de uma glória efêmera, mas, no final das contas, de que vale a vida, se ela não lhe extrair o melhor de você, a cada momento ?

 

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